terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Resenha: Anjo Mecânico (As Peças Infernais #1) - Cassandra Clare



 Todos nós, seres humanos, temos algum guilty pleasure que gostamos de esconder a sete chaves e negar até a morte. Porém o meu prazer culposo deve ser admitido com o intuito de fazer vocês, leitores dessa resenha, entenderem o motivo pelo qual resolvi ler a série "As Peças Infernais" de Cassandra Clare.
 Sem delongas, resolvi confessar que todas as quartas-feiras eu, Beatriz, passo o dia inteiro ansiosa esperando o momento de poder relaxar em frente ao computador, acessar a Netflix e assistir (no estilo sessão de cinema, com direito a luzes do quarto apagadas e até mesmo um doces para beliscar) o seriado adolescente Shadowhunters.
 Sei que já passei da fase de me empolgar com séries de televisão em que meninos e meninas estão vestidos de preto com espadas que brilham na mão caçando vampiros; lobisomens; feiticeiros e alguns novos demônios. Porém a vida anda muito difícil para deixar-me ser consumida pela culpa de aproveitar um seriado despretensioso (#iregretnothing, #nãomejulguemsoulegal).
 Eis que entre um ou outro episódio, acabei me interessando novamente pelos livros da Cassandra Clare, já que em 2010 (sim, sou antiga) li e adorei o livro "Cidade dos Ossos" da série "Os Instrumentos Mortais". Meu amor pela história de Jace e Clary foi tão grande que na mesma época comprei em inglês o primeiro livro da série "As Peças Infernais" e desde então ele estava pegando pó na minha estante (romances de época começaram a ser publicados no Brasil e todo meu planejamento de leitura foi por água abaixo).
 Agora, graças a Shadowhunters (guilty pleasure recompensando a vida) eu finalmente li "Anjo Mecânico" e arrumei mais uma trilogia para  aquecer meu coração e curar minha ressaca literária. Vamos (até que enfim) ao resumo e opinião do livro (e fica aqui meu agradecimento à você que leu esses cinco parágrafos de devaneios/digressões/diário pessoal, prometo me controlar nas outras resenhas).
 "Anjo Mecânico" conta a história de Theresa Gray, uma garota americana que após o falecimento de sua tia recebe uma passagem de navio do irmão Nate para ir morar com ele em Londres, já que agora ambos estavam órfãos e sozinhos no mundo.
 Ao desembarcar na cinzenta e úmida Londres de 1878, Tessa decepciona-se ao encontrar no lugar do irmão a Sra. Black e a Sra. Dark. As excêntricas irmãs mostram uma carta de Nate à garota, na qual o rapaz instruía Tessa a embarcar na carruagem das velhas senhoras sem maiores explicações. Inocente aos acontecimentos sobrenaturais envolvidos, nossa heroína dá início a um problema gigantesco.
 Logo no primeiro capítulo o leitor descobre que Tessa não é totalmente humana, já que a pobre adolescente de dezessete anos consegue transformar-se em outras pessoas (vivas ou mortas) simplesmente segurando um objeto pertencente ao ser que ela deseja tomar forma. 
 Paralelamente a confusão física e mental da Srta. Gray, somos apresentados aos protagonistas masculinos dessa narrativa. Will Herondale e Jem Carstairs são os dois britânicos responsáveis pela investigação da morte sobrenatural de uma garota mundana nas ruas londrinas.
 Seguindo as pistas e os passos do possível demônio que teria assassinado a menina, Will depara-se com a moradia das Irmãs Sombrias e invade a casa das mulheres de forma a resgatar Tessa da quase escravidão e levar a moça para o famoso Instituto (lar de todos os Shadowhunters e pessoas pertencentes ao universo oculto).
 Já no Instituto, o leitor é apresentado à Charlotte e Henry que controlam as atividades do local; além da terceira Shadowhunter Jessamine e alguns criados da casa como Sophie; Thomas e Agatha.
 Tessa, após ter sofrido nas mãos da Sra. Dark e Black, reluta em acreditar na bondade dessas pessoas e resolve aceitar sua temporária estadia na "casa" apenas com a intenção de ter ajuda para encontrar seu irmão, uma vez que as Irmãs Sombrias diziam ter aprisionado o garoto, e também proteger-se contra o Magistrado (um homem desconhecido, cujas irmãs queriam casar Tessa).
 Ainda que relutante e desconfiada, a Srta. Gray não deixou de notar a beleza galesa do rapaz William (que tinha cabelos escuros e olhos azuis) e também ficou atenta as exóticas características físicas de James (cujos olhos e cabelos possuíam um tom prateado). Conclui-se que não faltaria romance ou mocinhos bonitos na obra (além do típico triângulo amoroso que é a marca registrada do gênero jovem adulto, porém relevei esse fato). Feito o breve resumo da obra vamos a melhor parte da resenha: o momento da opinião pessoal. 
 Se você leu o primeiro livro da série "Os Instrumentos Mortais" é impossível não notar e estabelecer semelhanças entres ambas as obras e personagens. Cassandra Clare segue a mesma temática presente em "Cidade dos Ossos", porém isso é um fato compreensível já que o universo apresentado é o mesmo, sendo o período histórico no qual  a autora situa ambas as séries a única diferença. 
 Assim sendo, não fiquei irritada e também resolvi não implicar com o famoso déjà vu que senti lendo alguns capítulos. Do mesmo modo que deixei passar a quase idêntica personalidade entre o trio Will/Tessa/Jem versus Jace/Clary/Simon, ignorando também as cem primeiras páginas do livro que foram focadas exclusivamente na apresentação dos personagens e consequentemente diminuíram o ritmo ágil da leitura.
 Portando a série não é imune aos defeitos e nem original em seu gênero, mas como eu disse na breve confissão inicial dessa resenha, os livros dessa trilogia entraram para minha lista de prazer culposo e eu simplesmente coloquei um "óculos cor de rosa" durante a leitura, fato que me fez apreciar mais o que Cassandra Clare faz de melhor em todos os seus livros: os diálogos sarcásticos entre os personagens (além de vários outros elementos, porém estou indo por partes).

"(...) Have you ever read The Book of Knowledge of Ingenious Mechanical Devices?"
"I've never even heard of it", said Will. "Are There any bleak moors in it, shrouded in mysterious mist? Ghostly brides wandering the halls of ruined castles? A handsome fellow rushing to the rescue of a beauteous yet penniless maiden?"
"No", said Magnus. "There's a rather racy bit about cogs halfway through, but really most of it is rather dry".
"Then Tessa won't have read it, either",  Will said"

 William arrancava um sorriso do meu rosto toda vez que ele simplesmente falava, era tanto deboche e ironia com todos os seres humanos ao seu redor que era impossível não se apegar ao rapaz carrancudo e misterioso. A constante brincadeira com o gosto literário de Tessa, nos leva ao segundo elemento favorável da obra: os personagens no cenário londrino vitoriano.
 Ainda falando de Will, já ficou claro que seu personagem conquista os leitores, porém algumas características de sua personalidade ficaram obscuras e verdade seja dita; certas atitudes do rapaz me incomodaram durante a leitura (principalmente a bobeira que ele fez no último capitulo da obra). Entretendo o passado sombrio de William será exposto no segundo livro da série e eu espero muito conseguir entender o motivo de tamanho rancor.
 Já Jem é totalmente o oposto do outro garoto e mesmo não querendo, acabei simpatizando mais com sua história nesse primeiro livro, pois a autora não esconde do leitor toda a história de vida desse personagem quase poético. Apesar de não ser tão sarcástico quanto Will, James nos conquista por sua sensibilidade e humor sutil, aumentando a futura concorrência pelo coração de Tessa.
 Theresa é a típica heroína do ano 1800 que cresceu bordando e lendo livros, porém a paixão literária da garota é o que a destaca e favorece sua relação com o leitor. Confesso que identifiquei-me com a moça no momentos em que ela comparava a vida real com alguma situação vivenciada por algum personagem fictício (quem nunca?). Ainda acredito que nossa heroína tenha muitos pontos à desenvolver, mas acredito (e espero) que a autora irá melhorar outros aspectos de sua personalidade no decorrer da trilogia.
 Mesmo sem uma participação constante na obra, Jessamine me conquistou mais do que Tessa, por apresentar ideias mais verossímeis com as das mulheres de sua época. A garota recusava aceitar seu lado Shadowhunter e queria simplesmente casar-se, ter um marido e cuidar da casa. Assim que Theresa chegou ao Instituto, Jessie agarrou a menina e já saiu para comprar laços e vestidos na área comercial de Londres (ninguém pode culpa-lá).
 Chegamos agora a última parte dos aspectos positivos: o papel das mulheres no cenário londrino vitoriano.
 O fato de Cassandra Clare ter colocado Charlotte como a comandante do Instituto cria uma ótima diferenciação à obra, pois enquanto Jessamine dita as regras da sociedade, Charlotte quebra os padrões. 
 Até mesmo durante o romance, Tessa confronta-se com as regras de como ela deveria agir, questionando ainda o papel e comportamento adequados aos homens em tais situações. Por ser uma obra de ficção e nem todos os elementos serem verídicos, é possível notar o trabalho de pesquisa da autora para tentar criar o ambiente vitoriano da melhor forma possível e como uma leitora que adora esse universo, acredito que Cassandra Clare fez um bom trabalho em recriar os cenários, vestidos e costumes de 1800.
 Um pequeno bônus antes da conclusão dessa resenha (e que deve ser citado) é o fato do livro ser repleto de lutas entre os Shadowhunters e as criaturas do Submundo, como vampiros; feiticeiros e até mesmo novos seres mecânicos. Então se você é fã da temática sobrenatural, não irão faltar água benta, balas de pratas, pentagramas e feitiços para complementar ainda mais a obra (agora sim, todos os bons aspectos da obra foram apresentados).
 Devido à todos esses pontos positivos, estou curiosa para ler a continuação dessa trilogia e descobrir todos os mistérios e problemas que não foram solucionados em "Anjo Mecânico", assim como ver o desenrolar do romance entre os personagens (só eu acho que Cassandra Clare deveria escrever um romance de época?).
 Por ter cumprido o que foi prometido no resumo e atingido minhas expectativas, conclui-se que todos deveriam dar uma chance à essa trilogia (e quem sabe até mesmo para a série de televisão?), pois não existe coisa melhor do que livros despretensiosos que conseguem nos tirar de realidade por alguns minutos.

"Sometimes, when I have to do something I don't want to do, I pretend I'm a character from a book. It's easier to know what they would do"



 Classificação: 4 de 5 estrelas.

4 comentários:

  1. Olá!
    Li esse livro há bastante tempo, mas ainda não continuei. Atualmente estou no terceiro livro de Os Instrumentos Mortais e também não pude deixar de comparar os trios, assim como você.

    Beijão
    Leitora Cretina

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    1. Eu parei no primeiro livro da série Instrumentos Mortais e ainda não criei coragem para dar continuidade na leitura. Mas acredito que consigo concluir pelo menos essa trilogia .)

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  2. As Peças Infernais é a minha trilogia preferida. Sem dúvidas. Concordo muito com o que você falou a respeito dos personagens e sim, tem muita semelhança com os Instrumentos Mortais. Mas essa história tem elementos que faltam em TMI e que a fizeram ganhar um espaço muito grande em meu coração. Meu rosto foi presenteado com um belo sorriso só de você mencionar como o caro Sr. Herondale te fazia sorrir toda vez que ele falava. Sou suspeita para falar porque a medida que você lê os outros livros você se apaixona ainda mais por ele e entende o porquê de tudo que ele faz. Além disso, a amizade, cumplicidade e beleza da relação dele com Jem é algo que traz mais graciosidade à história. Chorei litros em várias e várias páginas dessa obra.

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    1. Oi Maíra, acabei de retomar a leitura de TMI e posso dizer com certeza, que TID realmente é mais elaborada e melhor executada do que Os Instrumentos Mortais. Herondale é o melhor mocinho de Cassandra Clare <3 Confesso que adorei os livros dessa trilogia, porém fiquei bem decepcionada com o último livro dessa série (esperava um outro tipo de desfecho, mas aparentemente eu sou a única pessoa no universo q tem um problema com o final dessa trilogia ahaha). Fico feliz q vc gostou da resenha e agradeço pela visita e comentário .D

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